terça-feira, 9 de julho de 2013

10º DIA

10º DIA. Puerto Maldonado – Cuzco


Foi um dos dias em que acordei mais empolgado.  O desafio de encontrar algo diferente ainda mais em terras estrangeiras era o meu combustível.  Como na maioria das vezes, tomei um bom café da manhã finalizando com um forte chá de coca com uma neosaldina para evitar o mal das altitudes. Eu não estava almoçando todos os dias. Comia apenas um chocolate ou uma barra de cereal ao meio dia. Assim eu não me sentia cheio, nem com sono, melhorando meu desempenho. Perdi um pouco de tempo arrumando a bagagem, acho que devido às tantas perguntas feitas pelo funcionário que me observava durante esta tarefa. Tudo pronto, saí rumo à interoceânica sob os olhares dos habitantes, passando pelo centro daquela cidade cheia de motocars. 
Famoso motocar

Deixei o mp3 do celular no modo aleatório e veio logo uma ótima música de Bruce Springsteen. É incrível como uma boa música influencia no nosso estado emocional. Com sorriso e vento no rosto, segui pela rodovia que aqui recebe também o nome de PE-30C. O governo peruano está de parabéns no quesito manutenção de suas estradas. Sempre há homens aparando o mato próximo à pista com aqueles cortadores de grama movidos a gasolina (acho). A pista por sinal é muito bem construída e não se observa buracos. Até pouco antes de Mazuko, onde presenciei uma forte manifestação por parte dos mineiros da região (há várias minas no local), não há muitas curvas. A partir da Serra Santa Rosa começam as curvas acentuadas, muitas em 180°. Esta serra foi, para mim, uma espécie de aperitivo à chegada da Cordilheira do Andes.
Serra Santa Rosa
 Não é seguro andar a mais de 80 km/h neste trecho caracterizado por tantas subidas e descidas apinhadas de curvas. O sol batia forte nas costas desde Puerto Maldonado, o que me fez sair sem segunda pele por baixo nem luvas para frio. Eu estava ainda em plena Amazônia peruana. A vegetação era robusta e densa em muitos pontos. O rio Inambari marcava presença, podendo ser observado em vários trechos. Sua água é de um verde que não se vê no Brasil e seu leito é coberto por pedras redondas de vários tamanhos, nas quais a passagem das águas provoca um barulho gostoso de ouvir. Tudo isso aguçava meus sentidos e eu não me continha fazendo várias fotos. Parava a moto, retirava o tripé, armava-o, fazia as fotos, desmontava o tripé e o prendia na bagagem novamente. Esta rotina me custou muito caro mais tarde.  Mas eu estava empolgado, não tinha capacidade de ser racional naquele momento. A alegria e o sentimento de conquista por estar percorrendo de moto e sozinho uma rodovia fantástica me despiam de ponderação em relação ao uso do tempo. Eu sentia necessidade de registrar tudo aquilo. E de repente choveu forte sem me dar chance de colocar a capa de chuva. Foram aproximadamente 20 km de água sobre o corpo e não havia lugar adequado para realizar parada. Atravessei a bela ponte sobre o rio Inambari, primeiro trevo Juliaca-Cuzco, até que numa determinada curva, pouco antes de uma cidade chamada Quincemil, avistei a Cordilheira dos Andes com toda a sua imponência e grandeza. 
1º trevo Juliaca - Cuzco

Fim do departamento de Madre de Dios

Cordilheira ao longe, momento emocionante.

Rio Inambari

A chuva já tinha dado espaço para o sol. Fiquei muito emocionado naquele instante parado sem saber se contemplava aquela maravilha da natureza ou se montava o tripé para registrar aquela cena. A cordilheira se estendia de uma ponta a outra do horizonte. Calculei que na extremidade esquerda, sul, seria o acesso à Bolívia via Puno e na direita, norte, seria o meu destino: Cuzco. Em Quincemil abasteci e tomei um refrigerante. Neste ponto era para eu ter colocado todo o conjunto de segunda pele e forro interno da calça e jaqueta, assim como as luvas próprias para frio, mas cometi o ato ingênuo de subestimar o poder daquela formação geográfica. Até por que estava quente e abafado. 
Abastecimento em Quincemil

No interior dos Andes peruanos

À medida que eu adentrava a cordilheira através dos espaços entre as montanhas, o frio ia aumentando. Aos 1700 metros coloquei a balaclava, aproveitando para mais fotos e apreciar as finas quedas d´águas que enfeitavam as enormes montanhas. Numa dessas paradas coloquei a capa de chuva já percebendo o erro de não ter saído de Puerto Maldonado de agasalho por baixo. Ao alcançar os 4500 metros peguei uma forte neblina com momentos de chuva. Ali eu andava à, no máximo, 30 km/h.
Acima de 4000 metros

 Eu não estava em pânico devido à intervenção divina. Neste ponto da rodovia a maioria das curvas faz um giro de 180°. A visibilidade estava quase zero até que atingi o altiplano e as nuvens se dispersaram. A vegetação mudou totalmente para um tipo rasteiro cor de musgo. As lhamas se mostraram presentes com seus agasalhos naturais. Eu não suportava mais o frio em todo o corpo, principalmente nas mãos e nos pés. Não vi outra saída senão arriscar uma parada e efetuar uma troca rápida de meia, camiseta por segunda pele plus e luvas com três camadas. Perdi algum tempo reorganizando a bagagem. Quantas lições eu aprendi neste dia? Com certeza muitas. Segui já com o sol se pondo sem saber que os apuros não haviam terminado. Apesar de não estar muito longe de Cuzco, não faria este trecho de forma rápida porque já estava escuro. Alguns carros faziam curva avançando o limite de sua faixa, outros queriam me ultrapassar de todo jeito, pois eu realmente estava lento. Para completar, presenciei um acidente. Uma Hilux desceu pelo espaço lateral onde escoa a água da chuva. Esta vala é bastante funda, o que fez com que a pick-up virasse de lado. Passei ao lado dela com os pneus ainda rodando no ar e o motorista a xingar o caminhoneiro que seguia na nossa frente. Resolvi rezar em voz alta, assim não me senti mais tão só. Acredito que rezei uns três terços, pois não contava as Ave Marias e os Pai nossos. Simplesmente ia orando aleatoriamente e pedindo a Deus para que eu chegasse logo ao meu destino. Avistei as luzes de Cuzco, mas parecia que eu estava andando era para trás, pois as mesmas continuavam distantes. Até que alcancei um grupo menor de luzes, era Urcos. As curvas se tornaram menos angulosas e senti a aproximação do meu destino naquele dia que poderia ter terminado melhor depois de tantas alegrias. Ao chegar em Cuzco diminuí a tensão e fui em busca da “Plaza de las Armas”, devidamente marcada em meu GPS, que devido ao bom mapa instalado, trabalhou muito bem no Peru. A Praça das Armas de Cuzco é o centro das atividades noturnas. Estacionei a moto sob os olhares de muitas pessoas às 08:40 h local. Pedi a um dos inúmeros jovens mochileiros que passavam, para tirar uma foto minha. O fez com honra. Chegando ao hotel, conheci o Jairo de Natal. Cara muito prestativo que me deu muitas dicas de como aproveitar a estada na cidade que já foi a capital do império Inca. Liguei para a família que estava aflita, tomei um bom banho quente, jantei e apaguei na cama. 

Praça das Armas em Cuzco...frio intenso de 0ºC
DVD América sem fronteiras em breve!!! Fotos, vídeos e relatos!

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