sábado, 13 de julho de 2013

12º DIA - Machu Picchu

12º DIA. Machu Picchu

Nem dormi direito com tanta ansiedade. Às 05:20 h já estava em direção à parada dos ônibus que levam à montanha Machu Picchu. Para chegar ao local é como andar num labirinto e em cada esquina aparecem pessoas com suas mochilas também a passos largos formando filas bem antes de chegar ao aglomerado de micro ônibus. A subida é em zigzag e as laterais da estrada não tem proteção. Se o veículo virar, não sobra ninguém para contar a história. Durante a subida observa-se também que muitos a fazem a pé. Eu também gostaria, no entanto resolvi poupar meus joelhos, que não são sadios, para gastá-los subindo a montanha Wayna Picchu. Juntei-me a um aglomerado de turistas na entrada do parque a espera do guia, aliás, não faça este passeio sem um deles. O sol não apareceu na hora de sempre devido às nuvens densas que o esconderam. Meu primeiro contato com aquela vista tradicional da Cidade Perdida dos Incas, como costuma ser chamada, foi surreal.
Sonhei muito com esta foto!


 Por mais que eu insistia em ser natural, não me continha e soltava frases como “pqp” pausadamente. A cidade dos engenhosos, perfeccionistas e audaciosos Incas era realmente linda e inevitavelmente enchia os olhos de quem estava presente. Você pode ver mil fotos de Machu Picchu, assistir a todos os vídeos possíveis, mas nunca sentirá a mesma emoção de estar lá. Com muita dificuldade, decidi não fazer fotos durante a explanação do guia Juan Carlos, o qual, dentro do tempo utilizado, explicou muito bem sobre as principais questões envolvendo a arquitetura, a história, o significado, o porquê de cada escultura feita por aquela civilização que estava a frente de seu tempo. Observe nas duas fotos abaixo a enorme diferença entre as construções feitas  pelo homem comum e pelos Incas. 
Restauração das paredes após o descobrimento científico.

Construção original dos Incas. Encaixe perfeito entre as pedras.
Acredito que chega a ser meio frustrante para cada visitante tentar explicar as sensações vividas naquelas horas mágicas. É difícil transformar isto em palavras escritas. Após todo o roteiro feito pelo guia, que durou em torno de 2 horas, fiz um lanche em um dos caros restaurantes localizados na entrada do parque e voltei fazendo fotos nos pontos em que eu achava mais interessante.
Guia Juan Carlos



 É uma longa jornada, mas muito prazerosa. Você passa o tempo todo por pessoas das mais variadas nacionalidades, fazendo o mesmo: apreciando a cidade e tirando fotos. Em alguns pontos há uma disputa pelos melhores ângulos. São muitas pessoas buscando o mesmo objetivo: guardar a melhor lembrança daquele lugar fantástico. Chegou um momento em que eu disse: chega, se eu não subir a Wayna Picchu agora, não sobrará tempo suficiente depois. Trata-se de uma longa escalada (1 hora) naquela montanha maior que fica no fundo das principais fotos do Machu Picchu. As escadas construídas de pedras, também pelos antigos Incas, formam uma subida sempre íngreme com vários pontos de inclinação mais acentuada.



 Chegar ao topo desta montanha é sentir-se vitorioso. No meu caso era uma conquista mais que especial, pois, eu tinha percorrido de moto e sozinho, quase 6000 km passando por muitos desafios em estradas como a transamazônica, para estar ali, no ponto mais alto daquela maravilha da natureza. Era o meu troféu e eu o recebi com satisfação.
Do alto da Wayna Picchu, Machu Picchu se torna pequena.

Nas nuvens, nos dois sentidos.



 A presença de pedras, em seu estado bruto ou pouco trabalhada, em locais sem um motivo aparente, dentre outras evidencias, mostram que Machu Picchu estava em construção quando os Incas foram atacados pelos espanhóis. Isto é bastante notório tanto em Machu Picchu quanto na Wayna Picchu. Comecei a fazer a descida e percebi que era tão difícil quanto subir. Difícil porque descendo você tem uma visão de cima para baixo e isto assusta, pois é muito alto. Cada falta de ar, cada momento ofegante, as dores sentidas nos joelhos, tudo valeu a pena. Fiz alguns amigos no local, sendo Barros e sua esposa uns deles. 
Barros e sua esposa

Ao nível da cidade dos Incas, todas as baterias das câmeras acabaram. Fui me despedindo do local lembrando-me das explicações de Juan Carlos à medida que passava pelos pontos já visitados. Apanhei o ônibus e desci para Águas Calientes, muito realizado. 
Um brinde a todos que acreditaram e oraram por mim.

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quarta-feira, 10 de julho de 2013

11º DIA

11º DIA. Cuzco – Águas Calientes


Acordei tarde (08:15 h) e apesar do frio tomei um banho. O café da manhã no hotel era simples, mas a hospitalidade dos funcionários era grande. Solicitei que lavassem minhas roupas sujas e saí em busca de uma agencia de turismo com o intuito de comprar as passagens para Ollantaytambo e Águas Calientes.


 A entrada para Machu Picchu eu já havia comprado com antecedência no Brasil. Na agência optei também por fazer um rápido city tour pela cidade naqueles tradicionais ônibus com vista panorâmica. Era o meu momento turista, que com tantas atrações fez o meu dia voar. Em Cuzco visitamos as principais praças, um mirador e o sítio arqueológico de  Sacsayhuaman, onde pude fazer as primeiras observações da famosa arquitetura dos Incas.



Centro de Cuzco

 De volta ao centro da cidade, só deu tempo de pegar as coisas no hotel e me dirigir a Ollantaytambo. Lá visitei outro sítio arqueológico, ainda mais movimentado. A estrada de acesso é linda, com várias montanhas de picos nevados. Para chegar à Águas Calientes, apanhei o trem onde conheci Álvaro e sua família. Eram uruguaios e também estavam a passeio.

Sítio arqueológico de Ollanta.





 Neste ponto da viagem pude observar o quanto Machu Picchu atrai pessoas do mundo inteiro. Só espiando de longe a capa dos passaportes, observei americanos, uruguaios, chilenos, brasileiros, japoneses, coreanos, italianos e argentinos. Chegamos em Águas Calientes mais de 20:00 h e a pessoa que deveria estar me esperando com meu nome na plaquinha não estava na estação. Então liguei para a agência em Cuzco que logo consertou o problema. Jantei bem e fui descansar, pois o dia seguinte prometia.

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terça-feira, 9 de julho de 2013

10º DIA

10º DIA. Puerto Maldonado – Cuzco


Foi um dos dias em que acordei mais empolgado.  O desafio de encontrar algo diferente ainda mais em terras estrangeiras era o meu combustível.  Como na maioria das vezes, tomei um bom café da manhã finalizando com um forte chá de coca com uma neosaldina para evitar o mal das altitudes. Eu não estava almoçando todos os dias. Comia apenas um chocolate ou uma barra de cereal ao meio dia. Assim eu não me sentia cheio, nem com sono, melhorando meu desempenho. Perdi um pouco de tempo arrumando a bagagem, acho que devido às tantas perguntas feitas pelo funcionário que me observava durante esta tarefa. Tudo pronto, saí rumo à interoceânica sob os olhares dos habitantes, passando pelo centro daquela cidade cheia de motocars. 
Famoso motocar

Deixei o mp3 do celular no modo aleatório e veio logo uma ótima música de Bruce Springsteen. É incrível como uma boa música influencia no nosso estado emocional. Com sorriso e vento no rosto, segui pela rodovia que aqui recebe também o nome de PE-30C. O governo peruano está de parabéns no quesito manutenção de suas estradas. Sempre há homens aparando o mato próximo à pista com aqueles cortadores de grama movidos a gasolina (acho). A pista por sinal é muito bem construída e não se observa buracos. Até pouco antes de Mazuko, onde presenciei uma forte manifestação por parte dos mineiros da região (há várias minas no local), não há muitas curvas. A partir da Serra Santa Rosa começam as curvas acentuadas, muitas em 180°. Esta serra foi, para mim, uma espécie de aperitivo à chegada da Cordilheira do Andes.
Serra Santa Rosa
 Não é seguro andar a mais de 80 km/h neste trecho caracterizado por tantas subidas e descidas apinhadas de curvas. O sol batia forte nas costas desde Puerto Maldonado, o que me fez sair sem segunda pele por baixo nem luvas para frio. Eu estava ainda em plena Amazônia peruana. A vegetação era robusta e densa em muitos pontos. O rio Inambari marcava presença, podendo ser observado em vários trechos. Sua água é de um verde que não se vê no Brasil e seu leito é coberto por pedras redondas de vários tamanhos, nas quais a passagem das águas provoca um barulho gostoso de ouvir. Tudo isso aguçava meus sentidos e eu não me continha fazendo várias fotos. Parava a moto, retirava o tripé, armava-o, fazia as fotos, desmontava o tripé e o prendia na bagagem novamente. Esta rotina me custou muito caro mais tarde.  Mas eu estava empolgado, não tinha capacidade de ser racional naquele momento. A alegria e o sentimento de conquista por estar percorrendo de moto e sozinho uma rodovia fantástica me despiam de ponderação em relação ao uso do tempo. Eu sentia necessidade de registrar tudo aquilo. E de repente choveu forte sem me dar chance de colocar a capa de chuva. Foram aproximadamente 20 km de água sobre o corpo e não havia lugar adequado para realizar parada. Atravessei a bela ponte sobre o rio Inambari, primeiro trevo Juliaca-Cuzco, até que numa determinada curva, pouco antes de uma cidade chamada Quincemil, avistei a Cordilheira dos Andes com toda a sua imponência e grandeza. 
1º trevo Juliaca - Cuzco

Fim do departamento de Madre de Dios

Cordilheira ao longe, momento emocionante.

Rio Inambari

A chuva já tinha dado espaço para o sol. Fiquei muito emocionado naquele instante parado sem saber se contemplava aquela maravilha da natureza ou se montava o tripé para registrar aquela cena. A cordilheira se estendia de uma ponta a outra do horizonte. Calculei que na extremidade esquerda, sul, seria o acesso à Bolívia via Puno e na direita, norte, seria o meu destino: Cuzco. Em Quincemil abasteci e tomei um refrigerante. Neste ponto era para eu ter colocado todo o conjunto de segunda pele e forro interno da calça e jaqueta, assim como as luvas próprias para frio, mas cometi o ato ingênuo de subestimar o poder daquela formação geográfica. Até por que estava quente e abafado. 
Abastecimento em Quincemil

No interior dos Andes peruanos

À medida que eu adentrava a cordilheira através dos espaços entre as montanhas, o frio ia aumentando. Aos 1700 metros coloquei a balaclava, aproveitando para mais fotos e apreciar as finas quedas d´águas que enfeitavam as enormes montanhas. Numa dessas paradas coloquei a capa de chuva já percebendo o erro de não ter saído de Puerto Maldonado de agasalho por baixo. Ao alcançar os 4500 metros peguei uma forte neblina com momentos de chuva. Ali eu andava à, no máximo, 30 km/h.
Acima de 4000 metros

 Eu não estava em pânico devido à intervenção divina. Neste ponto da rodovia a maioria das curvas faz um giro de 180°. A visibilidade estava quase zero até que atingi o altiplano e as nuvens se dispersaram. A vegetação mudou totalmente para um tipo rasteiro cor de musgo. As lhamas se mostraram presentes com seus agasalhos naturais. Eu não suportava mais o frio em todo o corpo, principalmente nas mãos e nos pés. Não vi outra saída senão arriscar uma parada e efetuar uma troca rápida de meia, camiseta por segunda pele plus e luvas com três camadas. Perdi algum tempo reorganizando a bagagem. Quantas lições eu aprendi neste dia? Com certeza muitas. Segui já com o sol se pondo sem saber que os apuros não haviam terminado. Apesar de não estar muito longe de Cuzco, não faria este trecho de forma rápida porque já estava escuro. Alguns carros faziam curva avançando o limite de sua faixa, outros queriam me ultrapassar de todo jeito, pois eu realmente estava lento. Para completar, presenciei um acidente. Uma Hilux desceu pelo espaço lateral onde escoa a água da chuva. Esta vala é bastante funda, o que fez com que a pick-up virasse de lado. Passei ao lado dela com os pneus ainda rodando no ar e o motorista a xingar o caminhoneiro que seguia na nossa frente. Resolvi rezar em voz alta, assim não me senti mais tão só. Acredito que rezei uns três terços, pois não contava as Ave Marias e os Pai nossos. Simplesmente ia orando aleatoriamente e pedindo a Deus para que eu chegasse logo ao meu destino. Avistei as luzes de Cuzco, mas parecia que eu estava andando era para trás, pois as mesmas continuavam distantes. Até que alcancei um grupo menor de luzes, era Urcos. As curvas se tornaram menos angulosas e senti a aproximação do meu destino naquele dia que poderia ter terminado melhor depois de tantas alegrias. Ao chegar em Cuzco diminuí a tensão e fui em busca da “Plaza de las Armas”, devidamente marcada em meu GPS, que devido ao bom mapa instalado, trabalhou muito bem no Peru. A Praça das Armas de Cuzco é o centro das atividades noturnas. Estacionei a moto sob os olhares de muitas pessoas às 08:40 h local. Pedi a um dos inúmeros jovens mochileiros que passavam, para tirar uma foto minha. O fez com honra. Chegando ao hotel, conheci o Jairo de Natal. Cara muito prestativo que me deu muitas dicas de como aproveitar a estada na cidade que já foi a capital do império Inca. Liguei para a família que estava aflita, tomei um bom banho quente, jantei e apaguei na cama. 

Praça das Armas em Cuzco...frio intenso de 0ºC
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domingo, 7 de julho de 2013

9º DIA

9º DIA. Rio Branco – Puerto Maldonado - 588 km


Ajustei o GPS para o próximo destino e saí por aquela cidade que jamais pensei um dia trafega-la. Uma concessionária Honda com várias motos estradeiras e esportivas de várias marcas estavam prestes a pegar a estrada. Pensei: legal, assim não vou só. Os caras passaram por mim como se eu estivesse parado. Iam a 160 km/h no mínimo. O ronco provocado por estas motos é incrível e me causaram um arrepio nas costas. Uma coisa é você ouvi-los passando de longe, outra coisa é ficar ao lado deles em movimento. Emocionante. E veio chuva. Para contrastar esse cenário, surgiu um belo arco íris. Acabei passando por alguns dos motociclistas, mas quando a chuva passou, o ronco daquelas motos voltou a abafar o tímido barulho da XT 660. Essa turma ficou em uma pequena cidade depois de Rio Branco (Capixaba). Parei na polícia rodoviária e enquanto pedia informação um maluco dizia, “filme eu, filma eu”. Fiz algumas fotos nas placas que indicam esta rodovia e na entrada para Xapuri, terra de Chico Mendes, até que cheguei em Epitaciolândia. Pouco antes tinha havido um acidente feio envolvendo uma picukp. A motorista foi levada pelo Samu, segundo os que estavam no local. 





Novamente passei a poucos metros da fronteira com a Bolívia. País que eu visitaria somente na volta.

Bolívia dentro da área rosa


 Ao chegar na alfândega brasileira, conheci  Vando, responsável pelo posto de combustível e que me emprestou seu telefone para que eu falasse com minha família. Ali conheci também o Luciano que estava a passeio com a família em direção a Cusco também. Carimbei meu passaporte na Policia Federal e me dirigi a Assis Brasil, última cidade brasileira, para almoço.


 Em Iñapari-Madre de Dios-Peru fui logo à migração. Fui atendido super rápido pela simpática Rosário. Na aduana foi mais demorado, mas no final o agente aduaneiro, muito gentil, me deu um mapa do Peru com informações sobre estradas e atrações turísticas. Tudo que eu precisava. Fiz o cambio a 1,20 (moeda deles está forte...ou a nossa fraca). Bati papo com Ricardo, um peruano que trabalha com turismo e estava cuidando da passagem de uma expedição com umas 20 motos e 3 carros. Colhi algumas informações através dele, que foi muito educado e prestativo.
Iñapari - Madre de Dios - Peru

Sr. Zapata, agente aduaneiro.

 Tudo certo, continuei na estrada em território peruano. A paisagem não muda nada. Se trata da mesma Amazônia brasileira e tem até fazendas com belos pastos. Não fosse pelas placas e carros diferentes, daria para dizer que estava no Brasil. Iberia foi a primeira cidade pela qual passei. Tudo bem simples, assim como Mavila e Planchon,  outras cidades na sequência. Vários rios cortam a rodovia entre eles Tahuamanu, Mayumanu e o rio Madre de Dios, já em Puerto Maldonado e que leva o nome do departamento (correspondente ao estado brasileiro). Nesta rodovia existem pedágios para automóveis e caminhões, moto não paga. Puerto Maldonado tem aproximadamente 40 mil habitantes e é a capital do departamento. Seu trânsito é marcado pela presença do que eles chamam de Motocar. Trata-se de uma moto com carroceria de carro pequeno. São muitos. Aqui não se vê moto de cilindrada maior que 250. O hotel que eu pretendia ficar estava lotado, pois a turma da expedição grande tinha reservado todos os apartamentos. Fui em busca de outro e graças a Deus encontrei um bom. São muito atenciosos e tentar entender o que um e outro fala se tornou uma diversão. Cheguei no final da conquista da seleção brasileira em cima da Espanha. Aqui todos conhecem os jogadores do brasileiros. Eu estava fora do Brasil, estava acontecendo. Bom demais.

Interoceânica peruana

Ponte sobre o rio Madre de Dios - Puerto Maldonado

Me lo merezco porque yo también soy hijo de Dios. Rs!!

Comemorei
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quinta-feira, 4 de julho de 2013

8º DIA

8º DIA. Humaitá – Rio Branco


Na madrugada houve uma chuva muito forte com muito barulho devido ao tipo de telha da varanda do hotel. Tomei café da manhã caprichado e fui abordado por outro hóspede, da mesma forma que no dia anterior. Várias perguntas, entusiasmo, vontade de um dia fazer o mesmo, mas não sabia se tinha a mesma coragem, talvez em uma turma e por aí vai. No final passei o blog para ele que saiu com cara de quem vai realmente acompanhar a aventura. A moto teve dificuldade de funcionar, pois a chave não girava. As engrenagens estavam ressecadas da poeira. Fiz uma foto na placa de saída da cidade e de longe avistei uma espécie de quartel com vários jovens militares. Acenaram para mim empolgados e devolvi com uma discreta buzinada. Com certeza cada um deles tem espírito aventureiro como o meu, pois acredito que para ser um militar é necessária uma boa dose de coragem para enfrentar obstáculos difíceis.
Humaitá - AM

 Segui pela BR 319 caracterizada por muitas retas  e asfalto bem preservado, diferentemente do trecho que liga Humaitá à Manaus, onde é conhecida por rodovia fantasma por ter poucos veículos transitando e seu estado ser péssimo, totalmente abandonado. Quem sabe um dia percorro essa pedaço de chão. Sem entender por que, meu painel marcou reserva em Soanopolis. Achei estranho, pois havia enchido o tanque na noite anterior como sempre faço ao chegar em uma cidade. Parei em uma casa que vendia a granel e, por precaução, coloquei 4 litros. Foi quando conheci outro Sr Carlos nesta viagem. Quando fui parando ele logo disse: rapaz, só faltou trazer mesmo o sofá e a televisão. Esse tipo de abordagem é muito comum de onde venho. Ele era de Sobral no Ceará e foi morar na região no período da corrida do ouro, década de 80. Tive uma conversa rápida com Sr Carlos, mas constatei em poucos minutos que ele tinha aprendido lições valiosas da vida. Lições simples, que todo mundo sabe, mas que em muitas vezes viram as costas e preferem seguir pelo caminho errado. 

Sr. Carlos

Cheguei em Porto Velho, atravessei o rio Madeira na balsa. Existe uma ponte enorme quase pronta. Segundo os que estavam na balsa, o governo estava cozinhando o galo para coincidir com a visita da Presidente à Porto Velho. Peguei umas dicas e fui à procura da revendedora da Yamaha. Comprei o filtro de ar e entreguei o bilhete bem humorado do Juan para o Luiz que trabalha na loja. Só balançou a cabeça riu e me devolveu. O uruguaio tira sarro de todo mundo.

Vejam o que a poeira da transamazônica é capaz de fazer.

 Durante a troca do filtro veio um rapaz do qual não me recordo o nome. Disse que ia fazer esta viagem também no ano que vem numa tenere 250. Trocamos algumas ideias até terminar de montar as coisas na moto. Segui pela BR 364 e concluí que a paisagem dessa região, desde Humaitá, é muito semelhante às do norte tocantinense e sul do Pará. São muitas fazendas, com muitos pastos.
Paisagem constante de toda a transamazônica até o Acre.
 Pecuária aqui é muito forte. Até o sotaque do povo é parecido com o das regiões citadas. Mas há também um sotaque típico de Belém, com aquele chiado. Muitos não são daqui. Em Jaci Paraná abasteci assim como em Abunã e logo cheguei para outra travessia do rio Madeira. Lá, conheci duas senhoras (mãe e filha) mineiras. A mãe estava visitando a filha que mora no Acre. Muito simpáticas e me ajudaram fazer algumas fotos.


 O legal é que nesse ponto passei a não mais que 10 metros da fronteira com a Bolívia. Os rios Madeira e Abunã abraçam o território boliviano nesse pedaço de chão. Há uma espécie de enseada com a bandeira da Bolívia. Do outro lado, quando desembarquei a moto, tomei um refrigerante e observei os passageiros entrando no ônibus. Havia vários bolivianos. 
Bolivianos

Enseada boliviana

Atrás destas árvores é território boliviano

A parte delimitada pela linha rosa é Bolívia, abraçada pelos rios Madeira e Abunã.

Abasteci em Vista Alegre do Abunã  e numa cidade chamada Extrema, ainda em Rondônia, coloquei a capa de chuva , pois o tempo estava muito fechado. Ali conheci o Valdir, um capixaba. O achei um pouco indignado por ter sido levado ainda criança para morar naquela região. Já Natanael, (de novo) cearense de Quixadá, estava muito feliz com sua vida em RO. Vivia na fazenda e disse que nada lhe faltava.  Parei em Acrelândia para abastecer, já estava no estado do Acre. 
Natanael, fazendeiro de Quixadá-Ce em Rondônia

Acre...nunca pensei em pisar aqui!
A paisagem do Acre é ainda mais marcada pelas inúmeras fazendas e todas com pastos bem cuidados que de longe parecem gramados. Foi assim até chegar em Rio Branco já escuro.
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