sábado, 3 de agosto de 2013

13º DIA

13º DIA. Cuzco – Puerto Maldonado


Cheguei em Cuzco tarde na noite anterior. Na manhã, fiz as malas já sentindo saudades de tudo que tinha vivido até ali. A guerreira estava estacionada na própria recepção do hotel e quando a vi senti algo estranho. Vê-la sem as malas me permitiu admirá-la de forma diferente. Cheguei muito longe na companhia dela. Passamos por apuros, mas superamos todos e estávamos ali, a mais de 6000 km de casa. Ao organizar a bagagem percebi o quanto o pneu traseiro estava gasto. Literalmente quadrado. Fiz muitos ensaios quanto ao tipo de pneu  que deveria usar nesta viagem. Inicialmente queria levar um reserva, depois desisti devido a quantidade de bagagem. Foi então que colhi relatos de colegas garantindo 13000 km com um jogo de pneus.  A questão é: existem pneus com boa durabilidade, mas não foi o que instalei na traseira. Tentei encontrar em Cusco, mas foi tudo em vão. Saí já tarde às 10:30 tentando decidir se seguia para o Chile ou se retornava para Porto Maldonado. Em Urcos parei após o rio Vilcanota, verifiquei o pneu novamente e resolvi dobrar à esquerda sentido Marcapata. Fui tentando amadurecer a ideia de não visitar todos os pontos desejados e me consolei com a paisagem que passava. Era um cenário mais belo que o outro. O mesmo trecho que me deixara tenso há algumas noites, agora me proporcionava momentos de alegria. Simplesmente não há retas nessa região, somente curvas.



 No altiplano havia uma neblina fraca cooperando para o aumento do frio, mas desta vez eu estava preparado. Saí do hotel já com todo o conjunto de segunda pele, forro interno da jaqueta e calça e deixei a capa de chuva em acesso fácil caso fosse necessário combater mais ainda o frio. À medida que os quilômetros iam passando, comecei a ver vários picos nevados, os quais formavam um cenário fantástico. O tempo era fechado, com cara de chuva prestes a cair.

Minhas mãos, a despeito dos dois pares de luvas que tentavam mantê-las aquecidas, estavam congelando. E eu achava que tinha feito um bom investimento naquelas luvas. Até me perguntei se existem luvas capazes realmente de impedir aquele frio. Caso existam, com certeza comprarei para a próxima expedição, pois até para puxar a embreagem, doíam os dedos. Mas pelo menos não estava chovendo, o que tornaria a diversão em martírio. Cheguei a um dos pontos mais altos daquela região dos Andes peruanos na encosta de uma montanha com alguns picos cobertos por neve, aliás, ali estava nevando. Pouco, mas estava. A placa dizia Abra Pirhuayani, 4725 m. 


Fotografei aquela paisagem que, ao menos para mim, não era comum. Neste momento senti a necessidade de ter uma câmera fotográfica melhor, pois o cenário era fantástico e precisava ser registrado à altura de sua beleza. Mais um aprendizado. Segui cortando aquele embolado de estradas por entre as montanhas até a quieta cidade de Marcapata. Parei para mais fotos quando se aproximaram três crianças curiosas, com aspecto sujo, sofrido e enchendo-me de perguntas, das quais dava para entender algumas. Solicitei uma foto com os pequenos peruanos que concordaram com muita euforia e ao me despedir, apanhei três moedas de 5 soles e entreguei a cada um deles. Inicialmente verificaram quanto tinham recebido para logo em seguida soltarem gritos de alegria. Eles diziam “propina, propina”. Com certeza não tinha o mesmo significado no português brasileiro. Eles se afastaram um pouco e quando liguei a moto para partir, correram os três e me abraçaram dizendo “gracias, gracias”.




 Confesso que esta cena me emocionou muito, pois eles tinham aproximadamente a idade de meus três filhos. Inevitavelmente lembrei-me dos meus amados e segui lentamente observando aquelas crianças acenando com suas mãos maltratadas. As curvas continuavam até que aquela pobre cidade sumiu do meu retrovisor. Ao chegar em Quincemil realizei outro abastecimento e logo percebi a mudança de vegetação, temperatura, enfim, estava de volta à amazonia peruana. A partir dali era possível acelerar mais e notei que fiz o caminho da Serra Santa Rosa mais rápido que na ida. Em Porto Maldonado fiquei no mesmo hotel, pois os outros continuavam lotados. Cobraram-me um pouco mais caro, reclamei, mas não obtive tanto sucesso. Resultado, 20 soles a mais. Inicialmente eram 40.

Em breve DVD da expedição América sem fronteiras