13º DIA. Cuzco – Puerto Maldonado
Cheguei em Cuzco tarde na noite anterior. Na manhã, fiz as
malas já sentindo saudades de tudo que tinha vivido até ali. A guerreira estava
estacionada na própria recepção do hotel e quando a vi senti algo estranho.
Vê-la sem as malas me permitiu admirá-la de forma diferente. Cheguei muito
longe na companhia dela. Passamos por apuros, mas superamos todos e estávamos
ali, a mais de 6000 km de casa. Ao organizar a bagagem percebi o quanto o pneu
traseiro estava gasto. Literalmente quadrado. Fiz muitos ensaios quanto ao tipo
de pneu que deveria usar nesta viagem.
Inicialmente queria levar um reserva, depois desisti devido a quantidade de
bagagem. Foi então que colhi relatos de colegas garantindo 13000 km com um jogo
de pneus. A questão é: existem pneus com
boa durabilidade, mas não foi o que instalei na traseira. Tentei encontrar em
Cusco, mas foi tudo em vão. Saí já tarde às 10:30 tentando decidir se seguia
para o Chile ou se retornava para Porto Maldonado. Em Urcos parei após o rio
Vilcanota, verifiquei o pneu novamente e resolvi dobrar à esquerda sentido
Marcapata. Fui tentando amadurecer a ideia de não visitar todos os pontos
desejados e me consolei com a paisagem que passava. Era um cenário mais belo
que o outro. O mesmo trecho que me deixara tenso há algumas noites, agora me
proporcionava momentos de alegria. Simplesmente não há retas nessa região,
somente curvas.
No altiplano havia uma neblina fraca cooperando para o aumento
do frio, mas desta vez eu estava preparado. Saí do hotel já com todo o conjunto
de segunda pele, forro interno da jaqueta e calça e deixei a capa de chuva em
acesso fácil caso fosse necessário combater mais ainda o frio. À medida que os
quilômetros iam passando, comecei a ver vários picos nevados, os quais formavam
um cenário fantástico. O tempo era fechado, com cara de chuva prestes a cair.
Minhas mãos, a despeito dos dois pares de luvas que tentavam mantê-las
aquecidas, estavam congelando. E eu achava que tinha feito um bom investimento
naquelas luvas. Até me perguntei se existem luvas capazes realmente de impedir
aquele frio. Caso existam, com certeza comprarei para a próxima expedição, pois
até para puxar a embreagem, doíam os dedos. Mas pelo menos não estava chovendo,
o que tornaria a diversão em martírio. Cheguei a um dos pontos mais altos
daquela região dos Andes peruanos na encosta de uma montanha com alguns picos
cobertos por neve, aliás, ali estava nevando. Pouco, mas estava. A placa dizia
Abra Pirhuayani, 4725 m.
Fotografei aquela paisagem que, ao menos para mim, não
era comum. Neste momento senti a necessidade de ter uma câmera fotográfica
melhor, pois o cenário era fantástico e precisava ser registrado à altura de
sua beleza. Mais um aprendizado. Segui cortando aquele embolado de estradas por
entre as montanhas até a quieta cidade de Marcapata. Parei para mais fotos
quando se aproximaram três crianças curiosas, com aspecto sujo, sofrido e enchendo-me
de perguntas, das quais dava para entender algumas. Solicitei uma foto com os
pequenos peruanos que concordaram com muita euforia e ao me despedir, apanhei
três moedas de 5 soles e entreguei a cada um deles. Inicialmente verificaram
quanto tinham recebido para logo em seguida soltarem gritos de alegria. Eles
diziam “propina, propina”. Com certeza não tinha o mesmo significado no
português brasileiro. Eles se afastaram um pouco e quando liguei a moto para
partir, correram os três e me abraçaram dizendo “gracias, gracias”.
Confesso
que esta cena me emocionou muito, pois eles tinham aproximadamente a idade de
meus três filhos. Inevitavelmente lembrei-me dos meus amados e segui lentamente
observando aquelas crianças acenando com suas mãos maltratadas. As curvas
continuavam até que aquela pobre cidade sumiu do meu retrovisor. Ao chegar em
Quincemil realizei outro abastecimento e logo percebi a mudança de vegetação,
temperatura, enfim, estava de volta à amazonia peruana. A partir dali era
possível acelerar mais e notei que fiz o caminho da Serra Santa Rosa mais
rápido que na ida. Em Porto Maldonado fiquei no mesmo hotel, pois os outros
continuavam lotados. Cobraram-me um pouco mais caro, reclamei, mas não obtive
tanto sucesso. Resultado, 20 soles a mais. Inicialmente eram 40.
Em breve DVD da expedição América sem fronteiras
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